[Resenha] O mel do cemitério é mais doce - T. L. Krauspenhar
Alguns livros chegam até nós no momento certo e outros simplesmente nos sequestram. O mel do cemitério é mais doce foi exatamente assim para mim. Comecei a leitura no final da tarde do dia 24 de dezembro, na véspera de Natal, sem grandes pretensões. Algumas páginas depois, já era impossível largar. No dia seguinte, passei o meu Natal inteiro mergulhada nessa história, lendo sem pausas, sem distrações, completamente capturada por tudo o que aquele livro tinha a oferecer.
Ambientado no Rio Grande do Sul da década de 1960, o romance nos apresenta Julieta, uma menina de 14 anos que vive o limiar entre a infância e a maturidade, entre a inocência e escolhas que mudam destinos. Desde o início, a narrativa constrói uma atmosfera estranha, silenciosa e inquietante, deixando claro que há algo além do que os olhos conseguem ver. Um acontecimento aparentemente inexplicável marca o primeiro contato de Julieta com o sobrenatural: um detalhe que fica guardado, esperando o momento certo para revelar seu verdadeiro significado.
Paralelamente a isso, a protagonista vive conflitos profundamente humanos: o amor não correspondido, o ciúme, a rivalidade feminina e a dor de desejar aquilo que parece sempre fora de alcance. Julieta é apaixonada por Josué, seu amigo de infância, mas ele já tem outra menina ao seu lado. O que começa como um desconforto adolescente cresce, aos poucos, até se transformar em algo muito maior, mais sombrio e perigoso.
É a partir desse ponto que o livro mergulha de vez no místico. Quando Julieta se vê encurralada em uma situação extrema, surge a Aranha Vermelha — uma figura que remete diretamente à lenda da Tecelã, aquela que manipula os fios do destino. A proposta feita à protagonista é tentadora e assustadora: um pacto que envolve imortalidade, poder e um preço que ainda será cobrado, em um tempo e de uma forma desconhecidos.
A grande força da narrativa está justamente nessa construção simbólica. O mel do cemitério é mais doce não é apenas uma história sobrenatural; é um livro que fala sobre desejo, amor, ambição, escolhas irreversíveis e as consequências de se brincar com forças que não compreendemos totalmente. Nada é simples, nada é gratuito, e isso torna a leitura ainda mais envolvente.
Outro elemento fascinante da obra é o uso do mel e das abelhas como metáforas centrais. O universo da apicultura atravessa a história de forma orgânica, ligada diretamente aos personagens e ao cenário. As abelhas, fundamentais para a manutenção da vida, surgem como símbolo de equilíbrio, ciclo e sobrevivência. Em contraste, a narrativa apresenta uma espécie específica, pouco conhecida e extremamente perturbadora: as abelhas carniceiras, capazes de produzir um mel único a partir da decomposição. É nesse ponto que o livro atinge seu ápice simbólico, misturando beleza e horror, vida e morte, doçura e decomposição.
A escrita é envolvente, poética quando precisa ser, e brutal quando a história exige. Os personagens são densos, cheios de camadas, e as emoções (especialmente as de Julieta) são retratadas com muita sensibilidade. É impossível não se sentir desconfortável em alguns momentos, e igualmente impossível não querer virar a página seguinte.
Sem entregar demais, posso dizer que O mel do cemitério é mais doce é uma leitura que provoca, inquieta e seduz. Um livro que fala sobre crescer, desejar e pagar o preço por aquilo que se escolhe. Não à toa, me fez passar um Natal inteiro presa à sua narrativa.
Sendo o primeiro volume de uma trilogia chamada Néctar Eterno, a história deixa aquele gostinho agridoce de “quero mais”, abrindo caminhos promissores para as continuações. Terminei a leitura completamente envolvida, admirada e ansiosa pelos próximos livros.
Se você gosta de histórias com lendas, simbolismos, atmosfera sombria, personagens femininas fortes e narrativas que permanecem com você mesmo depois do ponto final, esta é uma leitura que recomendo de olhos fechados. Um livro que prova que, às vezes, o que nasce da escuridão também pode ser irresistivelmente doce.


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