Resenha | O Ceifador de Anjos, de Juliette Vasconcelos

Existem livros que nos conquistam pela ação, outros pelos personagens e alguns pela capacidade de nos deixar desconfortáveis do início ao fim. O Ceifador de Anjos, primeiro volume da Coleção de Fetos, de Juliette Vasconcelos, se encaixa perfeitamente nesta última categoria.

A trama acompanha Vincent, um biomédico bem-sucedido, bonito, inteligente e aparentemente dono de uma vida perfeita. Apaixonado pela namorada, cercado por pessoas que o admiram e com uma carreira sólida, ele parece ser alguém acima de qualquer suspeita. Mas por trás dessa fachada impecável existe uma face sombria que ninguém conhece.

Vincent é o homem por trás dos crimes que chocam a cidade. Conhecido pela polícia como "O Ceifador de Anjos", ele busca mulheres grávidas, remove os fetos e deixa em seus corpos uma marca registrada: um versículo bíblico. Enquanto os investigadores tentam desesperadamente descobrir sua identidade, Vincent segue vivendo normalmente, escondendo seus segredos até mesmo da mulher que ama.

O que torna a história ainda mais perturbadora é que Vincent não se vê como um assassino. Em sua mente, ele é um justiceiro. Convencido de que está salvando crianças de lares que considera inadequados, ele escolhe suas vítimas a partir de critérios próprios e distorcidos. Mulheres em situação de vulnerabilidade, vítimas de violência ou que desejam construir uma família fora dos padrões que ele considera aceitáveis acabam se tornando seus alvos. Sua lógica é cruel, mas faz sentido dentro de sua própria visão de mundo, e isso torna o personagem ainda mais assustador.

Ao longo da narrativa, acompanhamos tanto os crimes quanto a rotina aparentemente comum de Vincent. Essa dualidade funciona muito bem e cria uma tensão constante. A cada novo caso apresentado, surge aquela sensação angustiante de que qualquer personagem próximo pode acabar entrando na mira do Ceifador. E, conforme sua vida pessoal avança — especialmente em questões relacionadas ao casamento e ao desejo de formar uma família —, o leitor passa a temer ainda mais as consequências de suas escolhas.

Juliette Vasconcelos constrói uma história viciante, daquelas que fazem o leitor dizer "só mais um capítulo" repetidas vezes. Foi exatamente o que aconteceu comigo. Depois que entrei no ritmo da leitura, simplesmente não consegui largar o livro até chegar à última página. A narrativa prende pela curiosidade, pela tensão psicológica e pelo constante medo do que pode acontecer a seguir.

O final deixa algumas questões em aberto, mas sem causar frustração. Pelo contrário: desperta ainda mais interesse pelos demais livros da coleção, que aprofundam personagens e acontecimentos apresentados neste primeiro volume. Confesso que saí da leitura já querendo conhecer melhor esse universo e entender o destino de algumas histórias que ficaram em segundo plano.

Para quem gosta de thrillers psicológicos, serial killers e personagens moralmente perturbadores, O Ceifador de Anjos é uma excelente recomendação. Muitas pessoas o comparam à série Dexter, e mesmo sem ter assistido ou lido a obra que inspirou essas comparações, consigo entender os motivos. Existe a mesma proposta de acompanhar um protagonista que vive entre a normalidade e a monstruosidade, criando uma experiência tão fascinante quanto inquietante.

Prepare-se para uma leitura intensa, desconfortável e extremamente envolvente. Juliette Vasconcelos entrega um thriller capaz de prender o leitor do início ao fim e deixar aquela sensação de urgência por mais uma página, mais um capítulo e, claro, mais um livro da série.

Antes de finalizar, acho importante deixar um alerta para quem pretende embarcar nessa leitura. O Ceifador de Anjos traz cenas bastante pesadas e, em alguns momentos, extremamente gráficas. Os crimes cometidos por Vincent são descritos com riqueza de detalhes, incluindo as cenas em que ele utiliza instrumentos cirúrgicos para retirar os fetos das vítimas. Além disso, a obra aborda violência física e psicológica de forma bastante explícita. Eu acredito que essas descrições ajudam a construir o impacto e o horror da história, mas podem ser gatilhos para leitores mais sensíveis. Portanto, vale a pena considerar esse aviso antes de iniciar a leitura.



29 anos, jornalista e fundadora do Portal Estante da Josy

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