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30 abril 2019

[Resenha] Carcaça ou o primeiro cadáver que eu vi na vida - Alexandre Sarian

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“Carcaça ou o primeiro cadáver que eu vi na vida”; autor: Alexandre Sarian; Kotter Editorial; 406 páginas.
     De cara somos apresentados ao cadáver protagonista dessa história e o responsável por essa situação. A carcaça é Fabrício, um jovem aspirante a ator, loiro, muito bonito, extrovertido, social e muito de bem com a vida, o que irritava muito Lucas, que é um cara super comum, que trabalhava como editor de vídeos e é muito anti social. Essas personalidades tão distintas fizeram com que Lucas não suportasse Fabrício desde o início.
     Lucas foi forçado aceitar Fabrício em seu apartamento após seu colega anterior casar e o deixar. Obrigado a encontrar outra pessoa para dividir a despesa, ele coloca um anúncio, mas logo é interceptado por seu chefe, Antonio Ribas, que praticamente o “chantageia” para aceitar o amigo Fabrício.
     Antes de aceitar a proposta de cara, ele pede para Fabrício ir pessoalmente no apartamento para se conhecerem, mas a primeira impressão já foi horrível. Ele definitivamente não foi com a cara do ator e até mesmo seu cachorro não foi com a cara do sujeito. Mas, como tinha sido coagido, acabou o aceitando mesmo assim.
     A convivência que se seguiu foi muito conturbada. Fabrício era o extremo oposto de Lucas em todos os sentidos, o que incomodava demais. Mas o que realmente mais o irritou foi o fato de Joana, melhor amiga de Lucas, iniciar uma aproximação intensa em relação a Fabrício. Lucas já começava a desconfiar de um envolvimento, mas tentava ignorar toda a situação. Porém, a cada dia, a relação entre sua melhor amiga e seu inimigo se aprofundava, o deixando cada vez mais enciumado.
     A raiva por grandes e pequenas coisas foram somando até que em um momento de descontrole e regado a muito álcool, Lucas acerta Fabrício com um peso de musculação e imediatamente ganha um cadáver no seu lar. Tudo aconteceu no calor do momento e ele não sabia como tinha sido capaz de fazer uma coisa dessas. Agora, incapaz de agir, ele tentava raciocinar sobre qual seria a melhor decisão, se era se entregar ou tentar escapar disso. E obviamente ele escolhe a segunda opção.
“Se tem uma barata vivendo no armário da sua cozinha, roubando de sua comida, basta uma chinelada e PÁ! O bicho está morto. Com Fabrício não foi muito diferente disso. A invasão existia, assim como no caso da barata [...] Bastou um peso de musculação de 10 quilos e PÁ! Fabrício estava morto. Seres humanos são vulneráveis como insetos. Somos meros insetos”.
     Os capítulos vão sendo intercalados entre o presente, em que ele precisa lidar com o corpo, e o passado, os acontecimentos que o levaram a cometer essa ação. E conforme vamos sendo apresentados ao passado, nós vamos conhecer mais da personalidade desse cara comum que se tornou um assassino da noite para o dia.
     Assustadoramente eu me identifiquei demais com a personalidade dele. Eu sentia as angústias dele por compartilhar dessa personalidade anti social passiva, ou seja, não consegue compreender as pessoas, não consegue iniciar uma conversa e muito menos manter um assunto por muito tempo. E não porque não quer, mas porque somos assim mesmo. Pessoas com particularidades que não são bem aceitas na sociedade. Além disso, temos uma sensibilidade incomum que tentamos com todas as forças não deixar transparecer. As pessoas ao redor julgam e colocam a culpa exclusivamente na pessoa por ser reclusa. “Você deveria dar mais chance para as pessoas se aproximarem. Você deveria conversar mais. Você deveria interagir mais”. Não é assim que funciona com a gente e por isso eu consegui compreender mais do que deveria o drama do protagonista e, assustadoramente, torcer por ele.
     Várias reflexões vão surgindo no decorrer da narrativa. A morte é o tema central, obviamente, mas as personalidades e comportamento das pessoas também são assuntos bem explorados.
“Antes, isso me tirava do sério, essa aparência de perfeição, mas no final, não estamos todos tentando destacar apenas nossas vitórias? É isso que fazemos! Escondemos problemas, tristezas, empecilhos debaixo de tapetes e sorrimos para a vida que não cansa de nos destruir”.
     A situação dele vai se agravando conforme o corpo vai apodrecendo, então em uma medida desesperada ele confidencia seu crime para Antonio Ribas, seu chefe, que o surpreende por nutrir o mesmo sentimento de ódio por Fabrício. Então juntos eles arquitetam um plano para se livrarem de toda essa sujeita, sem imaginar que o plano brilhante poderia dar errado.
     O suspense se estabelece. A cada cena a situação vai se tornando ainda mais complicada, ainda mais angustiante. Lucas e Antonio se envolvem numa aventura indesejável que revela mais do que eles gostariam de saber. Fabrício começa ter uma descrição mais humanizada quando apresentados por outros personagens (mas confesso que comecei não gostando dele, fiquei com um pouquinho de dó no meio, mas finalizei ainda não gostando dele).
    Preciso reconhecer que o final que o livro teve foi o mais apropriado, mas preciso confessar também que eu desejava um final diferente. Tem muito mais de Lucas em mim do que eu gostaria de admitir. Mas acho que a mensagem do livro é bem clara: Ninguém conhece ninguém.


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