[Resenha] Lolita - Vladimir Nobokov

Olá, Leitores! Hoje trouxe uma convidada para falar sobre o livro preferido dela. Não é um livro comum, possui um tema bem forte e traz reflexões e discussões marcantes. O livro é Lolita, e ai vai a "resenha" da minha amiga Amanda Campos. Tenho certeza que após ler esse texto, vocês serão grandes conhecedores sobre o tema.

LOLITA: A escura luz de nossas vidas
Por: Amanda Campos

‘’Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo.Li.Ta.Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calcando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita. ’’



Com essas doces e eloquentes palavras recitadas acima se inicia sem pormenores uma das mais profundas e delicadas narrativas do século XX. Lolita não é apenas uma história polêmica e muito avançada para a literatura contemporânea universal, mas sim um relato perturbado vindo de um narrador pouco confiável que utiliza de forma sutil e com maestria as palavras, polindo-as e tornando afáveis aos ouvidos do caro leitor. Com esse encanto literário, o russo Vladimir Nabokov nos apresenta Humbert Humbert, um singelo personagem que cometeu um único pecado: a irreprimível e desastrosa paixão por uma menina de 12 anos chamada Lolita.

Inicialmente recusado por quatro editoras e apenas lançado no idioma inglês, em 1955, por uma editora parisiense, em que metade de seu repertório era de cunho erótico ou pornográfico, a obra foi apenas lançada nos Estados Unidos em 1958, onde rapidamente conquistou os críticos e tornou-se um dos livros mais vendidos de todos os tempos estando, hoje em dia, na 37° posição entre os livros mais vendidos de todos os tempos. Lolita expandiu limites e quebrou tabus por expor uma história que aos olhos dos bons e decentes cidadãos não passava de pornografia pura. Apesar de todo o alarde sobre a obra, a mesma não abriga um único termo sequer obsceno, Nabokov foi tão cauteloso na escolha das palavras que o leitor precisa atentar-se à leitura, pois o diabo está, literalmente, nos detalhes.


A história não é um daqueles romances convencionais e adocicados que enche o coração do leitor de ternura, tampouco é uma obra libidinosa recheada de episódios eróticos, fato que faz com que muitos leitores abandonem a obra quando os ocorridos cessam e a narrativa se torna entediante. Lolita nada mais é que uma viagem alucinada pela mente perturbada de um homem de meia idade que se considera o mais vil dos seres humanos, aquele que, segundo seu próprio e distorcido julgamento, não passa de um cão sarnento e abandonado que sem um único pestanejar e com toda a sua falta de caráter abusou incessantemente de uma doce garotinha americana, roubando algo muito mais precioso que sua virtude: sua infância.
O que distingue o enredo de Lolita de um crime inimaginável contra uma inocente criança é que, a criança em questão não era tão inocente assim. Muito pelo contrário, Lolita não é uma criança púbere desavisada e sim, uma consequência da adolescência acelerada pelo tempo em uma sociedade em que os tabus eram quebrados dia após dia e o avanço iminente da cultura americanizada entrava nos lares cada vez mais cedo, tornando a doce menina uma verdadeira femme fatale, que sabe do poder proporcionado pelo seu corpo e suas ações e, mesmo que subconscientemente, consegue manipular e seduzir um homem com o dobro de sua idade, mesmo sem ter a devida noção dos resultados de seus atos.
O eufórico e obsessivo narrador sobre o pseudônimo de Humbert Humbert nos presenteia por meio de uma misteriosa e bem humorada narrativa, a história, que por muitos, pode ser considerada repugnante de sua vida. E o que difere o culto professor europeu de literatura francesa de um homem comum é o fato que ele se auto-intitula um pedófilo. Humbert descreve em detalhes sua forte atração por meninas púberes de 9 a 12 anos de idade, resultado de uma paixão de infância por uma menina chamada Annabel em que ele viveu um tórrido amor juvenil, porém mal sucedido e que nunca chegou a ser consumado, devido a menina morrer de Tifo, criando assim danos permanentes dentro de sua maculada mente em que sua atração pelas ninfetas (termo criado por Vladimir Nobokov e originado em Lolita devido à sua paixão por lepidópteros, onde a ninfa é a forma imatura do insetos. Segundo Nabokov: "entre os limites de idade de nove e catorze anos, virgens há que revelam a certos viajores enfeitiçados, bastante mais velhos do que elas, sua verdadeira natureza - que não é humana, mas nínfica insto é, diabólica. A essas criaturas singulares proponho dar o nome de 'ninfetas'".) faz com que ele tenha os mais sórdidos desejos acerca das meninas. Porém, Humbert não é o típico pedófilo esquisitão que sai oferecendo doces para garotinhas em praças públicas, muito pelo contrário, ele é um erudito e bem educado francês que sabe esconder seus desejos doentios por meio de um véu de polidez e cultura, considerado por muitas mulheres (em que ele ao longo do livro tenta, sem obter êxito, manter um relacionamento normal, em sua tentativa frustrada de ofuscar seus desejos primitivos) um sujeito charmoso e acima de tudo interessante que leva uma vida normal e acima das suspeitas. Um monstro lapidado por marfim escondendo sua verdadeira natureza diabólica, que nada mais é que um distúrbio mental em consequência de uma incorrigível doença. Humbert é praticamente o advogado do diabo em uma passagem afetada em que defende a natureza dos homens que tem o desvio de caráter (segundo sua própria concepção) inclinado para a pedofilia:
“senhoras e senhores membros do júri, quase todos os preferência sexuais que anseiam por uma latejante relação com alguma menininha (sem dúvida pontuada de ternos gemidos, mas não chegando necessariamente ao coito) são seres inofensivos, inadequados, passivos e tímidos, que apenas pedem à comunidade que lhes permita entregar-se ao seu comportamento supostamente aberrante, mas praticamente inócuo, que lhes deixe executar seus pequenos, úmidos e sombrios atos privados de desvio sexual sem que a polícia e a sociedade os persigam. Não somos tarados! Não cometemos estupro, como fazem muitos bravos guerreiros! Somos seres infelizes, meigos de olhar canino, suficientemente bem integrados para saber controlar nossos impilais na presença de adultos, mas prontos a trocar anos e anos de vida pela oportunidade de acariciar uma ninfeta. Positivamente, não somos assassinos: os poetas nunca matam”.

Sendo assim, a obsessão de Humbert por meninas não passa de um devaneio existente apenas em sua imaginação, nunca saindo do plano imaginário e sendo executado na realidade, ele fantasia e deseja as menininhas, mas o bom senso e seu autocontrole fazem com que ele consiga controlar seus impulsos imorais, pelo fato de que ele nunca seria correspondido por uma criança inocente. Tudo isso muda em 1947, quando ele vai morar em uma pequena cidade da Nova Inglaterra chamada Ramsdale para escrever um artigo acadêmico. A vida do simpático professor tem uma mudança avassaladora quando ele conhece Dolores Haze, ou simplesmente Lô, a ninfeta homônima do livro, de 12 anos, que é a filha de sua senhoria Charlotte Haze. Inicialmente ele não ia ficar na casa, pois a mulher faz com que ele se sinta acuado com suas investidas sem sucesso e suas tentativas fúteis de ser culta e sofisticada, não passando de uma burguesa viúva e dona de casa a quem Humbert despreza infinitamente desde o primeiro encontro referindo a ela como a ‘’vaca velha Haze’’. O único fator que faz com que o europeu mude de ideia e permaneça na casa é sua filha, Lô, que ele carinhosamente apelida de Lolita. Seu maior desejo e, fatalmente, a sua sina.
Dolores Haze é a personificação do próprio diabo em forma de um anjo, mas suas descrições não são totalmente confiáveis, pois ela é apenas um relato, como uma memória que vai se desvanecendo da mente perturbada de Humbert. Sendo assim, podemos ver Lolita apenas refletida pela sua distorcida visão, sua personalidade é, sutilmente, apagada pelas palavras do homem. Como citado anteriormente, H.H. não é um narrador inteiramente confiável, o mesmo já passou uma temporada em um sanatório devido a um colapso nervoso, o que não ajuda muito em sua credibilidade. Somos introduzidos à Lolita, sob sua perspectiva e sua narração, em que ele detalha com astúcia, carinho e com uma louvável afeição o mais puro (por mais doentio e distorcido) amor que ele já conseguiu reunir por um ser vivo, todas as suas fantasias, desejos e frustrações são canalizadas na menina que, surpreendentemente, como é revelado aos poucos no livro, entra em um perigoso jogo de sedução com Humbert. Tudo isso apenas pelo desafio de competir com sua mãe a atenção do homem mais velho, que é educado, charmoso, culto, viajado e experiente. Ele tem toda aquela aura de artista de cinema, que a jovem admira pela quantidade de revistas de cultura norte-americana em que é bombardeada, diariamente, pela sociedade cada vez mais precoce dos anos 40.
E assim, começa um perigoso jogo de sedução entre a menina e o professor europeu. Lolita, em sua inocência, parece não notar as malignas predileções de Humbert por ela, que fantasia, constantemente, com a garota criando cenários imaginários entre eles. H.H. é esperto e calculista, sua obsessão é tanta que ele cria cenários imaginários em que se livra de sua senhoria, a ultrajosa mãe de Lolita e fica com a criança toda para si, ansiando por momentos sozinhos com Lô. Em determinada passagem do livro, ele fica extremamente empolgado com um simples passeio em um lago local com a menina e sua mãe, a simples perspectiva de ver a menina seminua irradia sua tórrida imaginação. Ela, por sua vez, acaba ficando muito próxima a ele e o impulsionando mesmo que sem ter a devida noção do poder que exerce sobre o homem, e a partir do momento em que Lolita percebe que pode conseguir o que quiser dele, todos os seus caprichos e desejos materialistas podem ser supridos com sua aproximação de Humbert. Sua maior fantasia é finalmente realizada: ele é correspondido por uma menininha.
Tudo ia muito bem à visão do anti-heróis quando, finalmente, as coisas estavam começando a dar certo para Humbert Humbert eis que o destino com seus planos mirabolantes passa mais uma vez uma rasteira nele. Lolita é mandada por sua mãe para um acampamento de verão e o simples pensamento perturbador de nunca mais ver sua criança púbere entristece profundamente Humbert, a simples ideia de toda a beleza e juventude da menina sendo desperdiçada em um acampamento a milhas e milhas de distância dele faz com que seu delicado estado mental fique cada vez mais comprometido, fato esse que é narrado em detalhes, com direito a todos os seus pensamentos monstruosos e pervertidos em um diário que ele mantém em seu quarto, detalhando cada plano e idealização macabra de uma aventura amorosa que ele idealiza realizar com a jovem. Instantaneamente, quando se vê, finalmente, livre da pirralha, Charlotte reúne a coragem necessária para declarar-se para Humbert, coagindo-o a se casar com ela ou procurar outro lugar para morar. Com medo de nunca mais rever Lolita, ele aceita se casar com a mulher desesperada.
Em uma repentina virada do destino com uma pequena lufada de sorte (ou azar), Charlotte, que é completamente alheia à aversão de Humbert com ela e sua obsessão por sua filha, encontra o diário do marido descobrindo, com horror, sua verdadeira natureza, acusando-o de ser "uma fraude abominável, detestável e criminosa". Ela ameaça entregá-lo às autoridades e levar Lolita para um reformatório afastando-a para sempre dele. Um detalhe importante desta virada na história, é que Charlotte não está horrorizada pelo fato de seu marido nutrir uma atração por sua infantil filha, mas sim, perplexa por ele não se sentir atraído por ela, enquanto a menina não passa de uma rival para si mesma. Em mais uma reviravolta do destino, quando está prestes a expor o monstro que ela abrigava em sua cama, Charlotte é atropelada por um carro em um acidente fatal e acaba sendo morta (se é fatal, então ela foi morta hahahahaha). A oportunidade perfeita no momento perfeito. Humbert assume assim a identidade de ‘’pai’’ de Lolita buscando-a do acampamento, onde inicia uma jornada por todo o país, dando começo ao seu tórrido romance com a menina.
Lolita é um livro avançado demais para o seu tempo, que gerou polêmica desde sua publicação até os dias de hoje, quebrando paradigmas e criando inúmeras reflexões acerca da natureza humana, até onde um homem doente pode chegar e até onde uma criança, que já não é tão inocente assim, mas sim, muito ardilosa, pode levar esse perigoso flerte. Vladimir Nabokov foi aclamado e também crucificado por esta obra, onde uma perigosa linha tênue entre a ficção e realidade foi inúmeras vezes questionada: Por que alguém criaria um livro como Lolita? E ainda por cima, de onde tiraria tal inspiração? Até o final de seus dias, em 1977, Nabokov negou veemente qualquer envolvimento com o tema obscuro de sua obra mais famosa, dizendo que apenas era o fruto de sua imaginação.
O mais intrigante de Lolita é que em alguns momentos os papéis são perigosamente inversos, o leitor encontra-se tão submerso e entorpecido no universo ‘’Lolístico’’ de Humbert Humbert, que acaba sentindo compaixão e empatia pelo personagem, torcendo até pela sua felicidade, sabendo que pelo rumo que a história segue isso é praticamente impossível. E a pobre criança Dolores, Dolly, Lô ou simplesmente Lolita, que teve sua infância roubada e sua identidade apagada, acaba tornando-se uma espécie de ‘’vilã’’ com toda sua birra, cinismo e sensualidade precoce que faz do pobre degenerado Humbert nada mais do que um capacho, uma verdadeira inversão de valores. A dúvida é plantada por Nabokov, que é eventualmente suprida apenas no final da trama por um Humbert que vos escreve atrás das grades condenado por um crime hediondo, querendo apenas imortalizar para o leitor sua história, é se Lolita realmente foi infiel ao professor de literatura francesa. Eles estavam realmente sendo seguidos por um doppelgänger maligno e ainda mais perverso de H.H. conhecido como Claire Quilty ou isso era mais uma armação de uma mente cansada e doentia? Um gancho para o grand finale da trama.
Por que alguém faria um livro sobre Lolita? E a pergunta mais crucial de todas: Por que alguém faria não um, mas dois filmes sobre Lolita? Oras, não só porque sexo vende, mas porque toda a polêmica e contradição do livro não poderia ser deixada de fora das telonas.
A primeira versão foi lançada em 1962 e dirigida por Stanley Kubrick, estrelado por James Mason e Sue Lyon. Nabokov foi nomeado para um Oscar por seu trabalho na adaptação do roteiro deste filme, que é bem distante do livro, até mesmo pela censura da época. O contraste é evidente entre a Bela (Sue Lyon) e a Fera (James Mason), os personagens mal se tocam, passando apenas a ideia para o telespectador que algo acontece entre os dois. Muitos criticaram o fato de Sue não ter a imagem de ninfeta púbere e sim de uma mulher adulta e de Mason ser assustador.








Sua segunda versão foi lançada em 1997, dirigido por Adrian Lyne e estrelado por Jeremy Irons e Dominique Swain. Essa versão é a que mais se aproxima do livro. Os tabus são quebrados, o contato é tão real que os atores tiveram que usar almofadas para não se tocarem nas cenas de sexo rodadas para o filme, pois a atriz que personifica a ninfeta de Nabokov tinha apenas 16 anos. Jeremy Irons se assemelha mais ao Humbert descrito pelo russo com suas feições e o carisma. O filme tem um tom mais sério e melancólico. 

Lolita, definitivamente, não é uma leitura fácil, apesar da maestria no idioma inglês, que Nabokov graciosamente brinca com as palavras utilizando e sugando todos os possíveis conteúdos linguísticos para enriquecerem a obra, ela também é dotada de diversas expressões em outros idiomas como o francês, que eventualmente acaba dando o toque europeu e culto a H.H.
‘’L’autre soir un air froid d’opéra m’alita: Son félé – bien fol est qui s’y fie!Il neige, le décor s’écroule, Lolita! Lolita, qu’ai-je fait de ta vie?’’‘’ A outra noite uma ópera ao ar frio me sua cama:
Sua Fele - bem que confia é uma loucura!
Está nevando, os colapsos cenários, Lolita!
Lolita, o que eu fiz com a sua vida?’’‘’Lolita, o que eu fiz com a sua vida’’,

próximo ao encerramento do livro Humbert chega a conclusão o que o leitor atento notou desde as primeiras páginas, ele não estragou apenas a sua vida, mas sim a de uma criança com planos e ambições. O que mais o entristece ao ouvir o coro de crianças brincando é a memória agridoce que a voz de sua Lolita jamais será ouvida entre elas, pois ele a roubou e guardou apenas para si próprio. Lolita é um símbolo cultural, não apenas citado na literatura, como no cinema (Beleza Americana- 1999) e em músicas também, que vão de The Police (Don’t Stand so Close to Me) até Lana Del Rey (Off To The Races). Mudou e inovou a maneira de muitas pessoas pensarem, nem todos são completamente ruins ou completamente bons absolvidos de sua parcela de culpa, como Humbert e Lolita, que tem suas tonalidades não totalmente brancas ou negras, mas sim mescladas em tons simplórios de cinza. E no final, tudo o que sobra é ferrugem e pó de estrelas.

“Senhoras e senhores do júri, a prova número um é aquilo que os serafins, os próprios serafins desinformados e simplórios com suas asas preciosas, invejaram. Contemplai esse emaranhado de espinhos.”. —Lolita, página 1.

Se leram até o final, gostaria de saber a opinião de vocês. Já leram? O que tem a acrescentar? 
Boa leitura! 

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