[Resenha] O Labirinto das Moiras - Tânia Calciolari

Resultado de imagem para o labirinto das moirasApresento a vocês um livro que, sem dúvidas, vai te apertar muito o coração. “O Labirinto da Moiras”, escrito pela autora Tânia Calciolari e publicado pela Editora Multifoco. O livro é um relato sincero que tem tudo para ser real. É ambientado na época da ditadura e imigração italiana e traz a história de duas mulheres como protagonistas que vivenciam esse período tão difícil. Por outro lado, o destaque de “protagonista” pode ser também dedicado a outra pessoa, ou melhor, outro ser: o destino. Que aqui é apresentado como um Deus mitológico, exatamente como se acredita na Grécia Antiga. Nessa crença existe um conflito entre liberdade e destino. Os povos queriam obter a liberdade, porém não a teriam, pois quem os comandavam eram os Deuses, ou seja, o destino está traçado e não há nada o que fazer. E é nessa base que a história é narrada com um final que surpreende pela sua própria essência.

Duas histórias são apresentadas: A de Marina, uma garota que perdeu seu pai para o regime militar de uma forma drástica já no início do livro. A forma como ele foi torturado me causou arrepios. Logo depois, essa dura realidade a separa também de seu grande amor. Todo esse sofrimento refletiu também em sua personalidade. E é depois de passar por essa trajetória que o Destino vai ao seu encontro para esclarecer coisas do seu próprio passado.
Por outro lado, é apresentada a história de Anna. Uma mulher que sofre tanto quanto Marina, tem em cada perda um aprendizado. No início da narração de sua história, ela está em um navio com seu marido partindo da Itália com destino ao Brasil. A viagem já foi bem turbulenta desde o início, mas o ponto mais drástico foi quando acontece um naufrágio que a separou de seu grande amor Pietro. Mas não só o perdeu de vista, como estava em uma terra desconhecida e não demorou muito para as dificuldades aparecerem, uma atrás da outra. E o mais terrível de tudo: Pietro já não mais a procurava porque achava que ela estava morta. Ela precisa seguir sua vida ali, em uma terra desconhecida de pessoas impiedosas. Mas ela faz do seu sofrimento, a sua vitória. Assim como na vida real, ela passa por inúmeros altos e baixos na vida. No caso dela, foram mais baixos, infelizmente.
“A Anna que a senhora conheceu, que sobreviveu a um naufrágio, à miséria, à fome,a um parto complicado, à perda de uma filha, acabou morrendo de causas naturais: morreu de choque de realidade.” 
A obra consegue extrair e expor o máximo da força do ser humano, que mesmo nos momentos mais difíceis, ainda consegue superar e conquistar a felicidade.
Desde o início da trama eu fiquei me perguntando quando é que o destino dessas duas mulheres se cruzaria (porque esse encontro eu tinha certeza que ia acontecer), e quando finalmente aconteceu, foi uma explosão de sentimentos que ainda estou tentando lidar. É uma história de vida tão sofrida, mas ao mesmo tempo tão doce e acima de tudo muito real. A narrativa tem uma forte carga histórica, é baseada em um contexto histórico real. Sendo assim, é impossível não ficar imaginando o quanto daquilo pode ter realmente acontecido. Talvez a história toda?
Justamente por ser tão real que preciso dizer que é um relato forte e comovente. Para quem gosta de biografias, principalmente das ambientadas na ditadura, vai devorar esse livro em pouquíssimo tempo, pois garanto que essa é uma leitura altamente recomendável para você.  As emoções que vivi durante essa leitura serão inesquecíveis.
“O medo faz isso com as pessoas, moço. Não dá pra julgá-las. Você nem percebe quando o medo chega, pequeno e fraco, que nem uma semente. Nem precisa se dar ao trabalho de plantá-lo, pois o medo cresce em qualquer lugar, até no canto escuro de um coração de gente. E então, ele cresce até atingir o tamanho de um homem e depois se torna maior que ele, fazendo-lhe sombra como uma árvore e o homem passa a acreditar que está protegido por essa sombra; é mais cômodo acreditar nisso, todo mundo quer proteção. Em troca, ele deixa a sombra falar por ele por algum tempo, mas o tempo vai se prolongando tanto que o homem se esquece primeiro do som das palavras, depois que tem uma voz e aí então se cala de vez. Sempre foi assim e vai continuar sendo, com negros ou brancos. Acho que o medo é o único que não faz distinção de cor nessa terra.”

Sobre a criação da obra:

“O Labirinto das Moiras” teve início quando Tânia estava em tratamento para a Hepatite C, em 2011. Na época, apenas 40% dos pacientes mostravam resultado ante as intermináveis injeções de Interferon. Esse número lhe causou uma angústia aguda e um medo crônico de ter um futuro e presente roubados de si.
E é justamente essa falta de livre-arbítrio e individualidade que a autora explora em sua narrativa. Utilizando a mitologia grega como inspiração, Tânia trilha o caminho que o Destino faz, cego ante às próprias amarras e limitações, porém perdidamente apaixonado pelos truques que o amor realiza com todos os seres. Como se fosse mais uma artimanha do próprio Destino.

Sobre a autora: 

Resultado de imagem para tania calciolariTânia Calciolari é mãe, esposa, irmã e filha. Nasceu em Araras/SP, passou boa parte da vida em Uberaba/MG, mas desde 2007 mora em Brasília. Formou-se em 1999 em medicina pela UFTM, e atualmente é especializada em radiologia. Acredita que ser médica e ser escritora são tarefas essencialmente ligadas à empatia, à capacidade de se colocar no lugar do outro, de ser o outro, seja para ter a sensibilidade suficiente para das a notícia de uma lesão suspeita, seja para criar uma personagem.





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2 comentários :

  1. Bom dia, Josy! Cada vez que um livro é lido por alguém, ele é reescrito de certa forma. Estou emocionada ao redescobrir meu livro visto pelos seus olhos! Obrigada pelas palavras gentis e por ter deixado essa história tocar seu coração! Beijo! Tânia Calciolari.

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    1. Que honra te receber aqui! ♥ Eu que te agradeço pela linda história!
      Parabéns! E te desejo ainda mais sucesso!
      Beijinhos ♥

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